Enquanto a Copa do Mundo de 2026 acontece nos Estados Unidos, o ex‑campeão mundial Romário, agora senador pelo Rio de Janeiro, decidiu abrir mão de sua remuneração parlamentar durante o período em que estiver como comentarista da CazéTV. A medida, anunciada em videoconferência ao plenário do Senado, tem um objetivo duplo: garantir a presença do parlamentar nas votações da proposta que elimina a escala de trabalho 6×1 e demonstrar transparência diante de críticas que associam políticos a benefícios indevidos.
Contexto da visita: a Copa do Mundo como palco de atuação parlamentar
Romário viaja aos Estados Unidos entre 11 de junho e 19 de julho para cobrir a Copa do Mundo como comentarista da emissora CazéTV. A missão jornalística coincide com o calendário legislativo, já que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, que propõe o fim da escala de trabalho 6×1 no serviço público, pode ser levada à votação ainda neste semestre. Ao contrário de outros parlamentares que se licenciam para participar de eventos internacionais, Romário optou por permanecer no cargo, alegando que a tecnologia moderna permite que ele exerça seu voto por videoconferência.
Em ofício encaminhado ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União‑AP), o senador solicitou a devolução dos vencimentos referentes ao período da viagem. “Na hipótese de, por qualquer motivo operacional, ocorrer o crédito de valores relativos a esse período, autorizo expressamente o desconto integral dos respectivos montantes nos pagamentos subsequentes, independentemente de nova autorização de minha parte”, escreveu Romário, deixando claro que qualquer pagamento futuro seria descontado retroativamente.
Por que a escala 6×1 gera tanta controvérsia?
A escala 6×1, adotada em diversos órgãos da administração pública, determina que o servidor trabalhe seis dias consecutivos e só tenha um dia de descanso. Defensores argumentam que a medida aumenta a eficiência e reduz custos operacionais, enquanto críticos apontam para a sobrecarga de trabalho, riscos à saúde mental e ao bem‑estar dos servidores. A PEC 221/2019, apresentada inicialmente em 2019, visa substituir a escala por jornadas mais equilibradas, alinhadas a normas internacionais de trabalho decente.
O governo Lula tem se manifestado favorável à mudança, mas a aprovação depende de maioria no Senado, onde o bloco governista ainda enfrenta resistência de parlamentares ligados ao bolsonarismo e a setores conservadores da bancada. Romário, embora filiado ao PL, tem se colocado ao lado da proposta, distinguindo‑se de aliados do ex‑presidente Jair Bolsonaro que defendem a manutenção da escala.
Romário renuncia ao salário: gesto simbólico ou estratégia política?
A decisão de devolver o salário gera debate sobre sua real dimensão. O senador recebeu aproximadamente R$ 33 mil mensais, totalizando cerca de R$ 99 mil para o período de 11 dias. Ao anunciar a devolução, Romário afirmou que “não receberá salário, desde o primeiro dia da Copa. O que for pago, será devolvido aos cofres públicos”. A iniciativa foi recebida com elogios por parte de Alcolumbre, que descreveu o ato como “honra ao Brasil” e ressaltou as agressões que o senador tem sofrido nas redes sociais e na imprensa.
Especialistas em ciência política sugerem que o gesto pode ter duplo objetivo: reforçar a imagem de integridade perante eleitores e neutralizar ataques de adversários que costumam acusar políticos de enriquecimento ilícito. “É uma estratégia de comunicação que visa consolidar a reputação de cidadão exemplar, especialmente num momento em que a confiança nas instituições está baixa”, comenta a professora de direito constitucional Ana Lúcia Monteiro, da UFRJ.
Reação dos colegas e da sociedade civil
Após o pronunciamento, o presidente do Senado elogiou a postura de Romário, mas também alertou para as “agressões” que ele tem enfrentado. Em entrevista ao programa “Radar Político”, Alcolumbre disse que a decisão de devolver o salário foi “pessoal e individual”, mas que reflete o compromisso do senador com a ética pública.
Organizações sindicais, como a Federação dos Servidores Públicos (FESP), apoiaram a iniciativa do senador, afirmando que a devolução de salários durante missões internacionais deveria se tornar prática padrão. Já grupos conservadores, alinhados ao bolsonarismo, criticaram a medida como “politização da remuneração” e acusaram Romário de usar a cobertura da Copa como plataforma para avanços legislativos.
Implicações para a votação da PEC 221/2019
Se a PEC for levada ao plenário ainda nesta sessão, Romário será um dos votos decisivos. O quórum necessário para aprovar a emenda é de 3/5 dos senadores, o que equivale a 49 votos. Até o momento, a bancada governista conta com 38 votos favoráveis, enquanto o bloco de oposição tem cerca de 30. A presença de Romário, portanto, pode ser crucial para alcançar a maioria requerida.
Analistas preveem que a votação será adiada para permitir maior debate, mas que a pressão pública – alimentada por campanhas nas redes sociais que destacam a necessidade de jornadas mais humanas – pode acelerar o processo. “A popularidade de Romário como ídolo do futebol e sua postura ética podem influenciar colegas indecisos”, afirma o consultor legislativo Carlos Alberto Silva.
Próximos passos: o que esperar nos próximos dias?
Nos próximos dias, o Senado deve definir a pauta de votação da PEC 221/2019. Enquanto isso, Romário continuará a comentar a Copa, transmitindo jogos e análises para a audiência brasileira nos Estados Unidos. A tecnologia de videoconferência será testada em tempo real, já que o senador pretende votar remotamente caso a matéria seja incluída na ordem do dia.
O caso pode abrir precedentes para outros parlamentares que desejam conciliar missões internacionais com obrigações legislativas, especialmente em um cenário de crescente digitalização dos trabalhos parlamentares. Se a estratégia de Romário for bem‑sucedida, poderemos ver um aumento nas solicitações de devolução de salários em situações semelhantes, bem como na adoção de regras mais claras sobre licenças e remuneração durante viagens oficiais.